Como defender uma opinião

A linha adotada pelos reality shows sempre foi o de escancarar o dantesco. A audiência quer ver na tela aquilo que “apimenta” as relações. Intriga, fofoca, sedução, traição: eis os ingredientes que prendem milhares de telespectadores na poltrona, sem lhes acrescentar nada na vida, a não ser a percepção de que as pessoas são capazes de tudo pra ganhar dinheiro. 
 Só que esse “tudo”de que se é capaz vem se ampliando com o tempo, com as edições e com a multiplicação do formato, o “tudo” vem transformando a proposta de mostrar a realidade do confinamento em uma exibição exagerada do que há de mais vil, obsceno e degradante nas relações sociais. O que se vê ao assistir o BBB por exemplo, são participantes concorrendo e se superando na arte de escandalizar o mundo, de evidenciar como modelo o que não deveria ser reproduzido, nem valorizado. 
 É óbvio de que a massificação dos vícios e dos defeitos de caráter que são vistos num programa como o BBB modifica o comportamento de quem é fã desse modelo. É impossível que não haja uma influência, uma conformação da visão do que é o mundo ao que é mostrado pela televisão. A sociedade brasileira sofre há 12 anos um processo de convencimento de que, o que ocorre dentro da “casa” é natural, aceitável, desejável. São valores totalmente nefastos sendo irradiados sobre uma geração inteira. O efeito recai sobre as famílias: cada vez mais fragilizadas. 
 Os pais que prezam por uma família de valores sólidos deveriam vacinar seus filhos esclarecendo que o que acontece na “casa” passa longe da realidade. Quem trai, pode sustentar uma falsa alegria, um falso contentamento enquanto durar a disputa, mas não é assim que os traidores são na vida real.  Não há realidade quando se liga promiscuidade à felicidade, não há beleza nenhuma na falta de consideração com os outros. Mentirosos podem até escapar de um paredão, mas não levam o prêmio na vida, não há votos que possam salvar um mau caráter de colher o que planta. 
 Escrevo esta coluna dos EUA, um país que leva muito a sério o que é transmitido pela televisão e que cerca a família de muita atenção e cuidado. Aqui, programas que incitem ao sexo promíscuo, ao estilo de vida perdulário, às drogas e à criminalidade, são exibidos só depois das 22h e em emissoras fechadas. Não se vê nos canais abertos o festival de sandices que se vê na tv brasileira e isso é um desejo da maioria, defendido por toda a sociedade que conserva a preocupação com a formação de jovens e crianças. 
 No Brasil, a situação só chegou ao atual por omissão dos que repudiam o que é exibido. Hoje, com a internet, a reação contrária aos abusos dos participantes pra conseguir atenção e fama é muito maior e muito mais fácil de acontecer. Quem sabe, não está aí a chave para uma mudança? 
Achei muito interessante um movimento que começou nas redes sociais de boicote aos patrocinadores do programa. As pessoas que se sentem ofendidas com a exibição irrestrita de péssimos exemplos propõem uma ação coordenada contra quem alimenta e lucra com a baixaria. 
 Programas como o BBB faturam algumas centenas de vezes mais que um telejornal, por exemplo. O lucro do reality é o que ajuda a sustentar a emissora no restante do ano. Os anunciantes se apegam ao gosto popular e a audiência para propagarem seus serviços e produtos. Mas e se a audiência mandasse uma mensagem clara de repúdio? Se a audiência cortasse pela raiz a alimentação desse programa. A proposta que ganhou as redes é deixar de consumir o que é anunciado no programa, declarando claramente que não é negócio associar a imagem de nenhum produto a um formato  que dilapida os valores familiares. 
 Imagine o impacto disso para as contas dos que promovem o BBB. Se uma campanha como essa prosperassem, as empresas que investem milhões para proteger a própria imagem certamente pensariam duas vezes antes de se arriscar. Afinal, quem gostaria de ter a imagem associada ao que é visto como errado? Quem gostaria de ter a marca ligada à cenas de abuso, à mentira, à intriga e à traição? Não consigo imaginar um investidor correndo esse risco. 
 Sem dinheiro, o formato teria de ser repensado e a audiência brasileira teria se manifestado em defesa própria, demonstrando sua força e capacidade de organização. É um passo para a exigência de mais qualidade e mais variedade na televisão. É um passo que precisamos dar com urgência. 
 Muita gente repudia o que é exibido nos realitys, muita gente se escandalizou com os últimos acontecimentos e se limitou a apontar o dedo, menear a cabeça e criticar para os mais próximos. Mesmo aqueles que decidiram mudar de canal ou desligar a televisão, foram tímidos diante do impacto que tem o acirramento do despudor em rede nacional. Demonstrar uma opinião tem seu valor, é claro, mas defende-la exige mais, exige uma atitude, exige colocar em prática o descontentamento e emitir um sinal evidente de não compactuar com o processo. A justificativa para manter um programa como o BBB no ar é que ali estão representados os brasileiros. Eu não estou representado por ninguém ali, e não vejo na casa nem sombra dos valores que defendo e quero para o minha família, minha comunidade e minha nação. Se você se sente assim também, que tal expressar essa insatisfação de modo que os responsáveis se incomodem? Fazer a nossa parte, juntos, pode nos levar a benefícios surpreendentes! Uma boa semana a você.

César Augusto Machado de Sousa é Apóstolo, Escritor, Radialista. Escreve todas as terças-feiras para o DM. E-mailapostolo@fontedavida.com.br